Dona Tancy e o “nosso tempo”

 

Logo que ela nos avista, vocifera em tom de pilhéria: “ não sou velha. Velhos são os anos e as estradas. E assim ela filosofa do alto de seus 84 anos. Com uma vontade inata de viver e alegrar-se, Dona Tancy toca a vida envolta em suas fantasias edulcoradas. 

Costuma usar jargões que a identificam de pronto: “tive oito filhos. Tidos”. Em seguida, relembra de sua mocidade com aquele ar saudoso que logo transforma sua face.

Suas passagens por Floriano, onde nasceu, Fortaleza, Oeiras e pelo Estado do Goiás servem de mote para reavivar suas lembranças mais punjantes. Recorda-se de sua juventude ensaiando um passo ou outro de dança. É assim que ela alegra e colore o ambiente contagiando a todos.

Fazendo palavras cruzadas, cometendo seus pontos cruz, bordando como ninguém, espera o tempo passar. Não se preocupa mais com o correr dos dias. Vive cada dia vertendo alegrias e cantarolando canções de seu tempo.

Satisfeita com a vida, afima que já trabalhou muito e, portanto, agora quer curtir um pouco de ociosidade. Seus cabelos brancos nunca conheceram tintura. Não por desleixo, mas, ao contrário, por pura vaidade. Prefere a originalidade às artificialidades do mundo moderno. 

Seus olhos esverdeados, realçados por uma pele roseada, saltam brilhantes e vazam  luzes.  Percebe-se, de pronto, que ela não deseja a celeridade do mundo moderno. O ritmo de seu tempo basta.

Sem atropelos, sem celeridades inúteis, sem perder a essência das coisas, sem comercializar emoções, Dona Tancy é personagem de sua época e não abre mão disso.  Fiel aos seus sentimentos, ela preserva a doçura e a candura de outrora.

A alegria de Dona Tancy é um desses sentimentos ternos que ela utiliza para enfrentar a dureza do dia a dia, a aridez cotidiana. Suas teorias e vivências sobrepujam as artificialidades e as fugacidades que nos assaltam nesse mundo esquizofrênico e exasperante.

Resistente às invencionices tecnológicas, prefere seus instumentos de labuta diária:  agulha de pontos cruz, que serpenteia pelos tecidos e uma caneta comum, que preenche os espaços em branco da cruzada. 

Dona Tancy “controla” o seu tempo. Não deixa que o “futuro” se imponha sem antes fazer uma reverência ao seu passado encantado. Sem pressa, sem hora de chegar e de partir, ela continua bordando e vivendo, vivendo e bordando, cantando e encantando.

Se eu pudesse, entregaria a eternidade a ela, de presente. Como não posso, só me resta eternizá-la nessas pequenas e tímidas linhas.

Zeferino Júnior

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