Golpe de 64: “ ´mentiras ‘ verdadeiras’”

 

Foto: Divulgação

 

 

 

Li e reli vários textos, recém-publicados, sobre o tenebroso período militar brasileiro, mancha que não se apaga da memória dos brasileiros. A exceção fez-se regra num período de tolhimento de liberdades. E o estado – com “e” minúsculo – passou a torturar e matar. Ponto.

 

Mas já não sou jovem o bastante para embarcar em meias-verdades. Já li o suficiente, ou quase, para ir além dos clichês. Já não sou enganado por discursos fabricados, historietas que apelam ao vitimismo, escondendo-se em narrativas farsescas, dignas de quem mente a fim de emplacar suas teses liberticidas.

 

Isso mesmo, caro leitor. Vou chegar aonde você imaginou: a democracia, naquela época, foi golpeada à direita e à esquerda. O regime das liberdades morreu órfão de pai e mãe, à exceção, é claro, dos que bravamente se indispuseram por convicção democrática.

 

O discurso quase uníssono, vocalizado hoje, é que havia uma turma – que está no poder hoje, que domina os centros acadêmicos das universidades públicas – disposta a pegar em armas, a se organizar em grupos para resistir aos milicos comandados pelos americanos, tudo em nome das liberdades democráticas.

 

Desvalada mentira. Eles só queriam impor uma ideologia muito mais macabra. Queriam, na verdade, uma ditadura do proletariado, sustentada pelos ideais maoistas e/ou cubanos.

 

A história é contada pelos vencidos. Exemplo único, acho, na história. É a tese que ecoa. As ações de tortura e morte, perpetradas pelos militares, já ganharam o seu devido lugar: a lata de lixo. Falta, agora, para o bem da memória, esclarecermos o que queriam os que se organizaram em grupos armados. O que pensavam quando estavam colocando bomba em estacionamentos, esmagando crânios com coronhadas, tocando, enfim, o terror.

 

Não devemos nada a essa turma. As famílias dos que morreram no cárcere, sob os “cuidados” dos terroristas de farda, devem ser reparadas sim, e a sua dor não vai se apagar, decerto. Não há nada que apague isso. Não podemos, no entanto, achar que os MR-8 (Movimento Revolucionário 08 de outubro) da vida estava querendo nossa liberdade. Ao contrário: só queriam tirá-la das mãos dos militares para ficar com ela, assim como o fez o assassino carniceiro da ilha-prisão do caribe.

 

E o incrível, ou ridículo para ser mais fiel ao sentimento, é que os tais “defensores da liberdade” de outrora passeiam por aí arrotando moralismo, intitulando-se heróis da resistência, levantando punhos em sinal de resistência ao regime democrático que eles não queriam. Faz sentido.

 

Apesar de viverem sob as regras da democracia brasileira, há algo de um saudosismo guerrilheiro e uma nostalgia que revela a atração inequívoca por regimes que ferem os ideais democráticos”, sintetizou Ives Gandra Martins em recente e belíssimo texto – “As mentiras ‘verdadeiras’”- publicado no Estadão.

No dia em que colocarmos todos os pingos nos “is”, empurraremos essas “mentiras verdadeiras” para o mesmo lugar onde estão depositados os escombros produzidos pela nefasta ditadura de direita.

Aí, sim, a história será contada com todos os seus detalhes, livrando-se das amarras ideológicas que escolhem, ao seu alvedrio, quem é bandido e quem é mocinho.

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