O caseiro Francenildo: a corrupçao do “bem” e seus apoiadores

São várias as lições que podemos tirar desse particular momento da vida política nacional. Mas uma delas é intrigante e, particularmente, reveladora: a de que existe uma corrupção tolerável, do “bem”.

Impressionante! Gente informada ou carecedora de informação saem em defesa, sem-cerimônia, de uma quadrilha que se instalou no poder e nos rouba sistematicamente. Acham que a turma do poder, por, em tese, ter o monopólio da  representatividade  do povo – uma mentira sem precedentes – pode perpetrar seus crimes sem ser admoestada.

Preferem ficar ao lado deles, como se as instituições – Justiça Federal, MPF, Polícia Federal, milhões de brasileiros – estivessem querendo derrubar um governo “legítimo”. Na verdade, um governo eleito com dinheiro roubado, como constam as delações premiadas dos grandes empreiteiros e do ex-líder do governo, Delcídio do Amaral.

Embora eu reconheça que o governo FHC nos legou importantes instrumentos – uma moeda forte, estabilidade, privatizações que permitiram nos tirar da dependência mastodôntica do estado -, logo que surgiu denúncias de que ele havia comprado a reeleição, passei a repudiá-lo. Votei, a partir daí, em todas as eleições, em candidatos do PT.

Como tenho uma inclinação para ser opositor, comecei a desconfiar, logo no início, de que algo muito ruim estava se aproximando.

Primeiro, comecei a sentir vergonha alheia dos discursos “carismáticos” daquele líder das massas, que contava, já, com uma popularidade nababesca. Passei a observar, facilmente, que o grupo que estava no poder tinha aversão a valores democráticos inegociáveis. Começaram a negar o legado dos governos passados, embora tenha alçado a uma popularidade imensa ancorado nos mesmos instrumentos do antecessor, valendo-se até da equipe dele.

Mas o ponto final, o que me fez perceber que estávamos lidando com um partido com aspirações claramente totalitárias, foi quando o ministro Palloci, enredado em práticas nada republicanas, utilizou-se do aparato do estado para esmagar um simples caseiro – quebrou o sigilo bancário na Caixa Econômica Federal do cidadão para provar que ele estava a serviço dos “golpistas”.

Era o estado a serviço de uma tara. Era o estado à mercê de gângsteres. O caseiro piauiense – Francenildo- passou a ser um obstáculo. Então é melhor execrá-lo e pespegar nele a pecha de “inimigo” do regime. O resto é história.

Hoje, a verdade está vindo à tona em lances dramáticos. Há os              ” batedores de bumbo” que gritam “é golpe, é golpe”. Esses são desprezíveis. São beneficiários, repartem o butim. Há os que, impressionantemente, saem em defesa gratuitamente. Não querem enxergar o óbvio. Preferem as sombras produzidas por eles a sorver a luz emanada de uma operação judicial e policial que, com suas falhas e acertos, tem nos deixado um legado que contraria a eterna impunidade tão decantada nessa democracia ainda claudicante.

As delações chegam a Aécio, principal líder da oposição. Espero que chequem e investiguem. E que, caso comprovado, leve ele às barras dos tribunais. Adianto que, mesmo sem saber do resultado das apurações, criei já uma resistência ao seu nome. Vou preferir outras alternativas.

Confesso um ar de desapontamento com alguns com quem sempre tive uma postura de admiração. Amigos de longa data. Parentes e conhecidos que estão acima de qualquer suspeita. A defesa que eles fazer da  bandidagem causa-me espécie.

Mas é assim mesmo. Como um liberal-conservador, tenha uma veia pessimista forte. Acredito na capacidade individual de cada um, sabendo que o impulso coletivo é muito forte e que ideias arraigadas, depositadas no inconsciente, tem uma força colossal. A vida segue.

Para os que defendem o que está aí, para os que não se dobram aos fatos escancarados, espero que reflitam em tempo de entender que não há “corrupção do bem”. Que, ainda que fosse verdade que o lulopetismo inventou um novo país, as leis, uma vez transgredidas, são aplicadas sem levar em conta a biografia de ninguém.

Santos e demônios não podem se furtar ao império laico das leis.

É isso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>