O conto que não veio

 

  jdd

 

Sempre sonhei em escrever um conto literário. Algo conciso, narrando algumas passagens importantes da minha vida, concentradas num único ponto de interesse, como deve ser a espécime literária, pelo menos nas afirmações do dicionário Aurélio.

Compulsando as memórias da minha vida, pouco ou quase nada achei que merecesse ser exarada por escrito. Como não pertenço à classe privilegiada dos literatos, soçobrei prematuramente e acho, sinceramente, que a tarefa é maior do que minhas forças.

Lembro-me de uma tentativa frustrada. Tudo começou com o assombro e uma pitada de deslumbre na minha chegada a São Paulo. A imensidão esmagadora do terminal rodoviário do Tietê me “apertava”. Era setembro, o inverno já começava a dar sinais de desvanecimento.

O ano era 1997 e nada tinha de especial. Atônito e surpreso caminhava com um pequeno papel na mão em busca de informações sobre um endereço. Em pouco tempo, já estava no meu primeiro aposento: uma travessa da Paulista. A casa era de uma parenta de posses. O meu próximo pouso era a Avenida São João, cruzada pela Ipiranga. Isso mesmo. Fiquei alguns dias na famosa avenida que engendrou a música de Caetano;

Por fim, logo após, estalei-me numa espécie de república na cidade de Guarulhos, onde, em definitivo, comecei a cursar Direito na faculdade local.

No final de cinco anos de graduação, eu tinha ambiente, personagens, mas pouca inspiração para confeccionar o referido conto.

Várias vezes visitei a Avenida Paulista na sua elegância nada discreta: a noite mais parecia uma vedete com olhos faiscantes nas suas piscadelas sedutoras. De dia, os cifrões tomavam o espaço e se avolumavam em formas de arranha-céus, símbolo maior do capitalismo financeiro. Ainda assim não consegui a sensibilidade suficiente para iniciar o texto.

O “Centro Velho”, despido de sua outrora pujança, revelava-se na sua arquitetura colonial, rica em detalhes e história. Era um fascínio só. A impessoalidade natural da cidade era aplacada por aquele ambiente do século passado, mas mesmo assim as barreiras intelectuais podavam-me do meu nobre intento.

Além dos “espaços”, personagens também construíram a minha realidade naquele lustro. Um deles, um senhor sexagenário, foi um dos mais marcantes.

Ex-metalúrgico, vivia reclamando da vida. Dividíamos um espaço pequeno no quarto da república. Lembrava ele, com um brilho nos olhos, dos tempos áureos do setor metalúrgico. Dizia com propriedade: “naquele tempo é que se ganhava dinheiro em São Paulo”.

Praticamente abandonado pela família, trabalhando como zelador da faculdade, urrava contra as maledicências da solidão que o invadia nos finais de semana. Costumávamos dividir o balcão de um barzinho próximo da pensão, e assim aplacávamos os nossos surtos mais solitários.

Nem mesmo esse personagem Dostoyeviskiano foi capaz de romper os diques que represavam minha mente e me impediam de escrever.

E assim, mesmo vivendo num ambiente permeado de acontecimentos e pessoas, não consegui, ao final, inspiração para confeccionar o meu desejo mais íntimo.

Faltaram-me perícia, destreza e arroubos literários.

Na verdade, cheguei a iniciar. Os primeiros encantos e desencantos, as descrições de lugares, a impressão das coisas, a solidão e satisfação, chegaram a se plasmar em algumas linhas de uma folha em branco. Mas não levei adiante.

Às vezes parecia que a inspiração ia chegar, mas logo partia. Era alarme falso. Volta e meia, num curso de alguma aula chata, tentava rabiscar algumas letras na tentativa de deflagrar o meu ralo instinto de escritor.

Por fim, acabrunhado, reduzi-me à minha insignificância. Saí de lá sem um conto, nem mesmo de réis!

 

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