O que querem os jihadistas

Um texto clássico. Uma ode aos valores ocidentais. Um rechaço à morte como valor a ser cultuado por tiranos. Aplausos.

Contardo Calligaris

O que querem os jihadistas

O apelo de quem me promete a morte é sempre maior do que o apelo de quem quer que eu me cuide e viva mais

Como disse Clóvis Rossi (na Folha de domingo passado), este foi um ano triunfante para o califado –pelo território que o Estado Islâmico conquistou na Síria e no Iraque e porque, aparentemente, ele conseguiu se apoderar de muitos corações e muitas mentes.

Notícias de sábado (27): um atentado contra turistas na Tunísia (38 mortos), um homem-bomba numa mesquita no Kuait (27 mortos) e uma decapitação na França. Tudo isso talvez nem seja uma ação coordenada, mas uma coincidência de atos “espontâneos”, realizados por pessoas que pertencem a comunidades diferentes e se declaram EI.

Calcula-se que, desde a fundação do Estado Islâmico, mais de 20 mil estrangeiros se juntaram aos seus combatentes. Quem são esses 20 mil? E qual é o charme que o EI exerce sobre eles?

Há desde muçulmanos que se radicalizaram frequentando tal mesquita ou tal madraçal até os que se converteram ao Islã só para poder se radicalizar e viajar até o EI. O que há de comum entre eles?

Em geral, os que procuram uma explicação psicológica que valha para todos concluem que os “legionários” do EI são jovens frustrados, que fogem da insignificância de sua vida e de seu mundo.

Tudo bem, mas seria errado supor que a religião ou um projeto político qualquer compensem o vazio dessas vidas. O mal-entendido começa com um estranhamento: como é possível, pergunta-se, que esses jovens escolham o EI se, assim fazendo, vão, no mínimo, se expor ao risco de perder a vida?

Pois é, pense um instante: por que, seja qual for a ideologia, a caveira está presente, quase sempre, como símbolo de tropas especiais, geralmente voluntárias?

É simples. Alguém promete que, se eu me juntar ao grupo, encararei a morte; ora, essa é a garantia decisiva de que o que estão me propondo é um valor –algo que, por uma vez, deve ser levado a sério. Que eu seja convidado a morrer pelo fascismo, pela SS Totenkopf ou pela jihad, tanto faz: o fato de que encararei a morte é suficiente para estabelecer que minha escolha está acima da “mesquinheza” utilitária ou hedonista de quem pensa “só” em sua vida e em seus prazeres.

Um valor sempre foi aquela coisa pela qual estaríamos dispostos a perder a vida. A astúcia contemporânea consiste em afirmar que o maior valor é a própria vida –o que produz um paradoxo lógico: como posso oferecer minha vida por algo, se preservar a vida é o valor supremo de minha cultura? Inclusive, como posso arriscar minha vida para salvar a vida de outros, se a vida é o que não devo perder?

Esse paradoxo lógico, que nos torna, no mínimo, prudentes em nossas escolhas (públicas e privadas), ressoa, aos ouvidos de alguns, como uma moral mesquinha e covarde.

É quase certo que, quanto mais preconizemos a vida (ou seja, o fato de sobreviver, viver mais, afastar a morte) como valor supremo, tanto mais adolescentes e jovens responderão ao apelo de quem erotiza a morte, ou seja, de quem lhes promete que, juntando-se a sei lá qual movimento, eles encararão sua morte e a de muitos outros.

Em outras palavras, o apelo de quem erotiza a morte é maior do que o apelo de quem preza a vida –justamente porque quem preza a morte sempre parece invocar um valor maior que a vida.

Não é difícil imaginar como pode acabar a luta entre quem preza a vida e quem preza qualquer valor pelo qual valha a pena morrer. Em tese, quem preza a vida é quem vai ceder, para salvar a pele.

Triste futuro: sobreviveremos num mundo em que aquele que se consagra à morte será o homem moral. E os outros serão apenas covardes, que, para preservar sua vida, desistiram de lutar por valores.

Ao box-office juvenil, uma cultura que preconiza o valor supremo da preservação da vida nunca exercerá um grande charme sobre quem sonha com um gesto moral que dê sentido à sua existência.

O pior é que nossa promoção da vida como valor não acarreta sequer a promessa de grandes prazeres. Ao contrário, viver um pouco mais se tornou um valor contra os próprios prazeres da vida. Ou seja, de um lado, “viva quanto mais possível e, para que isso aconteça, goze com muita moderação”. Do outro, “não contabilize o tempo de sua vida, acabe com ela num fogo de artifício que, retroativamente, dará sentido a tudo o que você viveu”.

O que você acha que escolherá um adolescente qualquer, que, como a maioria de seus colegas, sofre por achar que o mundo e a vida dele não significam grande coisa?

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