Os ricos segundos os intelectuais de esquerda

Foram anos e anos de patrulha. De loteamento. As esquerdas venceram a guerra cultural e, agora, impõe seus (des) valores. Vai ser difícil se livrar disso. Mas a luta continua. Leiam o ótimo Leandro Narloch:

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Intelectuais de esquerda não costumam gostar de novelas. Dizem que os personagens são caricatos, que as histórias, rasas e simplórias, reproduzem estereótipos e preconceitos. Por isso é uma surpresa perceber que autores de novela e cientistas sociais da USP traçam o mesmo retrato dos ricos brasileiros.

Nas novelas da Globo, a possibilidade de um personagem ser o vilão cresce com a renda. Odette Roitman, Laurinha Figueroa, Felipe Barreto, Félix: a turma do mal geralmente tem muitos dígitos na conta bancária. Também é assim (pelo menos até agora) na novela mais recente, I Love Paraisópolis. No primeiro capítulo, a rica e loira Soraya (Letícia Spiller), representante da elite branca, vislumbra a favela e desabafa: “Por mim eu jogava uma bomba nesse lugar”.

Um retrato parecido vem dos intelectuais de esquerda. No último sábado, André Singer, professor de Ciência Política da USP e porta-voz do governo Lula, escreveu que Dilma “foi derrotada pela reunificação da burguesia em torno do rentismo, que é avesso de qualquer coisa que cheire a igualdade”. Em março, também na Folha, disse pior:

A classe média tradicional mostrou que tem horror à ascensão social dos pobres. É um fenômeno sociológico e político. Chega a ser uma rejeição ao próprio povo brasileiro.

Singer não é o único a enxergar os ricos contrários ao governo como seguidores de Satã. Para Bresser-Pereira, ex-ministro dos governos Sarney e FHC, há no Brasil um “ódio de classe alta” (Letícia Spiller na novela!) que “decorre do fato de que o governo revelou uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres”.

Leio isso e já imagino a cena. Numa luxuosa sala no alto de um arranha-céu, homens de terno participam de reunião tensa. Os membros da elite rentista estão preocupados com a ascensão social dos mais pobres. “É terrível”, diz um deles. “Agora os pobres até compram leite! Ninguém mais me pede dinheiro no farol.” O homem que parece o líder da burguesia conclui: “Temos que unificar nossas forças contra os pobres e o PT”. O homem ergue o braço, balança o Rolex e pergunta: “Tô certo ou tô errado?”.

Ora, basta mudar de canal para desapegar-se dessas bobagens. Se é possível traçar alguma relação entre renda e personalidade, a mais correta seria oposta ao retrato das novelas e teses de esquerda. Pesquisas mostram que quanto maior a escolaridade (e, de carona, a renda) maior a tolerância entre classes, o respeito aos direitos humanos e a intolerância à corrupção.

E se há alguma ideologia dominante na elite brasileira hoje, ela é justamente o contrário do rentismo. O sonho da maioria dos jovens riquinhos é inovar e empreender. Cursos e festivais de empreendedorismo têm filas e listas de espera de gente querendo arriscar suas economias numa oportunidade de negócio, numa forma de ganhar dinheiro resolvendo problemas dos outros. Abrir uma startup é hoje tão descolado quanto criar uma banda.

Os intelectuais da USP estão tão isolados do mundo real e obcecados com as próprias ideias que mal concebem a possibilidade de sensatez ou boa intenção em opiniões divergentes. Como observou o economista Mansueto Almeida, André Singer e seus colegas acham que, se alguém se opõe ao governo, é porque tem ódio de classe, e não porque o partido causou bilhões de prejuízo à Petrobras, ou porque o governo aumentou a dívida pública para emprestar com juros subsidiados a empreiteiras ou porque as pedaladas fiscais afastaram investidores e vagas de trabalho. Estão tão convencidos de que estão do lado dos pobres que consideram seus adversários membros de uma sociedade secreta que planeja jogar uma bomba em Paraisópolis.

Pelo menos há nisso tudo uma boa notícia. Pra ter aulas com essa gente, não é preciso frequentar a USP. Basta ficar em casa assistindo a novela das sete.

@lnarloch

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