Um olhar sobre os números na eleição em SRN

 Por Evandro Júnior

Após a apuração dos votos em São Raimundo Nonato, é necessário fazer um análise fria dos números obtidos pelos candidatos a deputado estadual e federal, sobretudo daqueles que tinham forças políticas locais apoiando – os.

DEPUTADO ESTADUAL:

EDSON FERREIRA – Com um total de 4.833 votos recebidos, que correspondem a 29% dos votos válidos, o candidato filho da terra e irmão do atual Prefeito Avelar Ferreira ficou abaixo do esperado. Contando com toda uma estrutura de fazer inveja a qualquer Deputado, o parlamentar não conseguiu atingir ao menos 30% dos votos em sua terra natal. Na minha visão, é um aviso a Família Ferreira haja vista que Edson é reconhecido como o mentor político de sua família.

DR. PABLO SANTOS - Com um total de 2.079 votos recebidos, que correspondem a 12% dos votos válidos. O resultado consolida o jovem Rogério Castro como liderança política em nossa cidade.

HÉLIO ISAIAS – Com um total de 1.962 votos recebidos, correspondendo a 11,77% votos válidos, o deputado fez o seu papel eleitoral em São Raimundo, mantendo a sua média de votos. Havia quem dissesse que o petebista teria mais votos por ser irmão do vice- prefeito e por contar com um grupo de vereadores que o apoiava. Eu, sinceramente, não esperava que ele ultrapassasse a casa dos dois mil votos.

ELIZETE -Com seus 1.305, que correspondem a 7,83 dos votos válidos em São Raimundo, a ex-vereadora consegue manter-se viva eleitoralmente tendo em vista a eleição municipal de 2016. Com pouca estrutura, a candidata conseguiu ultrapassar a barreira dos mil votos,não deixando assim que a população sanraimundense a esqueça. Confesso que esperava que Elizete obtivesse pelo menos 2 mil votos, tendo em vista que uma boa parte dos seus votos é uma forma de protesto a alguns candidatos aqui da cidade. Falo isso sem menosprezar os serviços prestados pela candidata enquanto foi vereadora.

MAGNO PIRES – Apoiado por Beto Macêdo, o candidato obteve 1.247 votos, correspondendo a 7,47% dos votos válidos do eleitorado Sanraimundense. Esperava-se mais desse candidato, haja vista que ele contava com uma estrutura razoável na cidade, sem contar que foi apoiado pelo candidato a prefeito derrotado na última eleição municipal.

FÁBIO NOVO – Com seus 567 votos, correspondendo a apenas 3,40% dos votos válidos, o candidato, apoiado pelo ex-prefeito Herculano Negreiros, foi para mim a maior decepção eleitoral em São Raimundo. Esse resultado mostra que Herculano vem perdendo sua força política com o passar do tempo.

Deputado federal

PAES LANDIM – Com seus 4.166 votos, correspondendo a 25,15% dos votos válidos, o parlamentar foi consagrado nas urnas pelo eleitorado sanraimundense. Com pouca estrutura e contando com poucos cabos eleitorais, o Deputado teve o seu trabalho merecidamente reconhecido pelo eleitor de São Raimundo.

MARCELO CASTRO – Com seus 3.912 votos, correspondendo 23,62% dos votos do eleitorado sanraimundense, o deputado mais uma vez fica atrás do Dep. Paes Landim. Como filho da terra, e contando com o apoio de várias lideranças, o deputado ficou aquém do esperado.

HERACLITO FORTES – O candidato a Deputado Federal oficial da família Ferreira obteve 2.121 votos, o que corresponde a 12,81% do votos válidos. Para quem contava com uma superestrutura, e com o apoio da família que governa o nosso Município, o Deputado ficou abaixo das expectativas. Mais uma prova que os Ferreiras precisam se alertar politicamente. A forma de administrar a nossa cidade, ao menos ao que parece, não está sendo bem vista pela maioria dos eleitores. O fato engraçado dessa candidatura do Heráclito foi vê-lo pedindo votos para a Marina Silva.

Niède Guidon: inteligência e quixotismo

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Niède Guidon é a personalidade mais importante de São Raimundo Nonato desde sua fundação. Sem ela, Niède, a cidade seria só uma vilazinha empoeirada do sertão do Piauí, respirando apenas por conta de um comércio insipiente.

Abandonada pelos governos – nacional, estadual e municipal-, a cientista franco-brasileira tenta, quixotescamente, dar andamento a sua monumental obra.

Não terá êxito caso insista em negociar com governos. A única saída seria a privatização dos serviços oferecidos no parque serra da capivara e do aeroporto.

Aí, sim. Longe da ineficiência do Estado e perto da lógica do mercado, Niéde veria seu sonho realizado. E os são-raimundenses desfrutariam de um bem-estar jamais visto em sua história.

No programa Roda-Viva, a cientista expressou sua inteligência e seu lamento.

 http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/videos-veja-entrevista/a-entrevistada-do-roda-viva-desta-segunda-feira-e-a-arqueologa-niede-guidon/

 

“Mundialmente respeitada pelas pesquisas e descobertas que desmontaram antigas teorias sobre a chegada do homem ao continente americano, a arqueóloga Niéde Guidon foi entrevistada no Roda Viva desta segunda-feira. Baseada desde a década de 70 no sertão do Piauí, ela criou o Parque Nacional da Serra da Capivara, preciosidade  histórica que tenta preservar numa luta desigual contra a indiferença do governo lulopetista.

Na entrevista, entre outros temas, Niéde falou da importância científica da região, riquíssima em fósseis e pinturas rupestres, e relatou algumas da sucessivas batalhas travadas para que o parque sobreviva ao descaso das autoridades federais, que se desdobra na mesquinhez dos burocratas,  no atrevimento dos grileiros impunes e na falta de dinheiro ─ de 2003 para cá, as verbas foram dramaticamente reduzidas.

Participaram da bancada de entrevistadores Bernardo Esteves (Piauí), Andresa Boni (TV Cultura), Ana Clara Costa (VEJA), Ulisses Capozzoli (Scientific American Brasil) e Herton Escobar (Estadão).”

O Piauí descansado

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O Piauí amanheceu na manhã de segunda-feira descansado. Farto de “carinho”, como dizia o poeta.

 Era o alívio por não mais ser palco de uma campanha eleitoral infame e deletéria.

Personagens picarescos, abobalhados e torpes  peregrinaram durante meses em terras piauienses e vocalizaram discursos idiotizados e ocos, tentando  convencer o eleitor.

E o resultado da eleição, que  não poderia ser outro, acaba por criar um alívio. Não propriamente pela vitória de Wellington Dias, mas por limpar a paisagem e permitir que a nossa vidinha medíocre volte ao normal, uma vez que a campanha estava piorando o que já é muito ruim.

O PT levou uma sova de 644 a 1!!!

Não existe nenhum jornalista, hoje, no Brasil, que se equipare a Reinaldo Azevedo. Escreve em doses industriais, dia a dia. E o faz com uma clareza invulgar. Com uma inteligência, idem. E com um sarcasmo da melhor estirpe. Reinaldo é um dos grandes personagens do Brasil contemporâneo.

07/10/2014

às 5:54

No Estado de São Paulo, o PT levou uma sova de 644 a 1!!! Aécio venceu Dilma em 565 de 645 cidades. Nunca antes antes na história “destepaiz”!

 

Vamos reescrever Caetano Veloso para deixá-lo irritadinho. São Paulo vê e não vê quem desce ou sobe a rampa, aquela lá, do Planalto Central do Brasil. Como não depende muito da boa-vontade de estranhos, não cede com facilidade à chantagem. Não é bolinho, não! O Estado tem 645 municípios: o governador Geraldo Alckmin venceu a disputa para o governo em, atenção!, 644! Só Hortolândia ficou de fora. Mas por muito pouco: 35.809 votos para Alexandre Padilha contra 32.354 para o tucano. Hortolândia é uma das 67 cidades administradas no Estado pelo PT. Alckmin ganhou em 66.

Mas não foi só isso. O presidenciável tucano Aécio Neves venceu a petista Dilma Rousseff em 565 dos 645 municípios — um total de 88%. Isso significa que tanto o presidenciável como o governador bateram o partido na cidade de Guarulhos, administrada pelo PT há 14 anos; na mitológica São Bernardo de Lula, que está na segunda gestão petista, de Luiz Marinho, o coordenador da campanha de Dilma em São Paulo, e na Osasco do presidente do PT paulista, Emídio de Souza.

Na Folha de S. Paulo, leio a seguinte explicação dada Joao Paulo Rillo, líder do PT na Assembleia: “Não temos conseguido fazer o debate com o eleitor paulista sobre os avanços dos governos do PT. O antipetismo se relevou muito forte”. Mas espere aí: esse antipetismo, então, deve ter um motivo, não é mesmo?

Acho impressionante que os petistas tenham tentando, no Estado, faturar com a crise da água, faturar com a crise dos transportes, faturar com a greve do metrô — ocorrências, enfim, que criam dificuldades para a vida dos paulistas — e achem estranho que a população tenha rejeitado a sua abordagem. Mais: indivíduos — e estamos falando da larga maioria — que não dependem da boa-vontade do poder público para garantir o próprio sustento e que não estão oprimidas pela pobreza ou pela miséria tendem a rejeitar essa espécie de tutoria que o partido busca exercer sobre suas vidas.

E, de resto, há a experiência propriamente com o jeito petista de fazer as coisas. O partido acreditar que o morador da cidade de São Paulo — o paulistano — caminha para aplaudir a gestão de Fernando Haddad, o maníaco da bicicleta, chega a ser um sinal de alienação da realidade.

Não é que São Paulo seja congenitamente antipetista, senhor Rillo. É que o petismo acaba sendo congenitamente antipaulista porque gosta de exercer a tutela sobre os cidadãos. E o lema do brasão da cidade de São Paulo expressa não só o espírito paulistano, mas também o paulista: “Non ducor, duco”. Não sou conduzido, conduzo.

Se o PT não entender isso, na próxima eleição, não vai perder por 644 a 1, mas por 645 a zero.

Reinaldo Azevedo

“Islamofobia”

Coutinho toca num assunto recorrente: islamofobia. E toca com aquela capacidade inerente de transformar assuntos complexos em palatáveis. Na Folha de hoje, o português dá mais uma lição de sabedoria e lucidez, sem perder a oportunidade de dar uma lição no ator americano Ben Affleck.

Provocou polêmica um recente programa do jornalista americano Bill Maher. Por causa do Islã. Por causa do islamismo.

Disse Bill Maher que os “liberais” gostam de defender os seus princípios quando as causas são politicamente corretas –a defesa da liberdade de expressão; a defesa da liberdade de consciência; a igualdade das mulheres; a igualdade das minorias; e etc. etc.

Porém, quando esses princípios não são respeitados pelas sociedades islâmicas, há um silêncio covarde que se instala entre as matilhas.

No programa, o filósofo e neurocientista Sam Harris concordou. E acrescentou: os “liberais” estão sempre a criticar os fundamentalistas cristãos quando há uma clínica de aborto destruída.

Mas quando a religião muda de nome e alguém é condenado à morte por apostasia, ou seja, por renúncia à fé islâmica, os únicos fundamentalistas que eles criticam são os “islamofóbicos”. “Isso é uma estupidez intelectual”, concluiu Harris.

Nem de propósito: sentado na mesma mesa, o ator Ben Affleck, que nunca mais regulou da cabeça depois da separação de Jennifer Lopez (opinião pessoal), resolveu debitar todos os clichês que Maher e Harris estavam a criticar.

Mostrou-se indignado com a identificação entre Islã e terrorismo. Proclamou que a maioria dos muçulmanos só quer viver pacificamente. E acusou os outros dois de “racismo” (o termo “islamofobia” seria um pouco óbvio no contexto).

Longe de mim criticar a sabedoria de um ator de Hollywood, que deve saber tanto de islamismo como eu de física quântica. Até porque nada tenho a contestar.

É óbvio que não existe uma relação necessária entre Islã e terrorismo. É óbvio que bilhões de muçulmanos só querem viver em paz. É óbvio que transformar uma religião inteira em antro de malignidade é uma expressão de racismo.

Mas também deveria ser óbvio para a cabecinha de Affleck duas ou três ideias que até uma criança entende sem esforço.

A primeira é que a relação entre Islã e terrorismo não é feita pelos ocidentais. Ela começa por ser estabelecida pelos próprios terroristas –aqueles que afirmam matar em nome do Profeta.

Isso pode ser injusto para a religião islâmica. Mas a injustiça da identificação é cometida pelos próprios terroristas muçulmanos. Constatar esse fato não é uma forma de “islamofobia”. É simplesmente constatar um fato.

Mas Ben Affleck comete um segundo erro, aliás comum em “celebridades” que se julgam novos mandelas: não estuda o suficiente e fala do que não sabe.

Como já foi escrito nesta Folha (“Quem são os muçulmanos?”, 28/5/2013), o mais completo estudo intelectual sobre os muçulmanos de todo o mundo, realizado pelo Pew Research Center, apresenta um filme assaz complicado.

Fato: a esmagadora maioria repudia o terrorismo. Novo fato: a esmagadora maioria também condena os castigos mais bárbaros da sharia.

Mas há exceções: em países como o Paquistão (88%), o Afeganistão (81%) ou o Egito (70%), apedrejar mulheres adúlteras ou condenar à morte “culpados” de apostasia continuam sendo esportes bastante praticados.

E, claro, a sharia deve ser para a maioria a fonte legal primária da organização social, o que implica que as liberdades “liberais” do Ocidente não fazem grande furor em Damasco, Riad ou Cabul. Constatar esse fato não é uma forma de “islamofobia”. É, novamente, a simples constatação de um fato.

Por último, se a memória não me atraiçoa, Ben Affleck dirigiu um filme, intitulado “Argo”, sobre o resgate “in extremis” de funcionários americanos da embaixada de Teerã quando Khomeini –o “Gandhi iraniano”, como lhe chamou carinhosamente Foucault– iniciou a sua teocracia em 1979.

No filme, Affleck trata os iranianos como um bando de selvagens, prontos a tirar o escalpe de qualquer cidadão do Grande Satã.

Não vou pelo caminho mais fácil de considerar ligeiramente “islamofóbico” a redução da grande civilização persa à caricatura que Affleck fez dela. Mas talvez seja interessante relembrar o que os dirigentes iranianos disseram sobre o filme e sobre Affleck. Resumindo, o filme era insultuoso e Affleck, “persona non grata”.

Espero que, depois da sua “performance” na TV, o ator esteja reabilitado aos olhos dos aiatolás. E uma viagem a Teerã talvez fosse o melhor teste.

Tenho a certeza que a recepção seria literalmente de rebentar.

 
joão pereira coutinho 

João Pereira Coutinho, escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do ‘Correio da Manhã’, o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro ‘Avenida Paulista’ (Record) e é também autor do ensaio ‘As Ideias Conservadoras Explicadas a Revolucionários e Reacionários’ (3 Estrelas). Escreve às terças na versão impressa e a cada duas semanas, às segundas, no site.

 

Política, corrupção e pizza

Luis Felipe Pondé é um pessimista. Isso é muito bom. Além disso, empresta ao texto um sarcasmo inusual. Abaixo, a sua coluna da folha de São Paulo de hoje. Formidável!!!

 

Luiz Felipe Pondé

Ninguém dá bola para corrupção em política. Nenhum estrato social. Nem rico nem pobre

Dito de forma direta, o que quero dizer hoje é: ninguém está nem aí para corrupção em política. Nenhum estrato social. Nem rico, nem pobre, nem culto, nem artista, nem inteligentinho. Pega bem dizer que se está, mas é pura afetação de salão. Coisa de burguês. A prova é que com ou sem Petrobras, no final, será servida uma grande pizza.

Escândalos se acumulam (e não me refiro apenas aos bolivarianos atualmente no poder), mas ninguém está nem aí. Justificativas sustentam toda e qualquer defesa de políticos ou partidos corruptos ou suspeitos de corrupção. A democracia tem uma dimensão circense e as eleições são seu clímax.

Sim, são afirmações céticas. O senso comum pensa que ser cético é duvidar da existência de Deus. Isso é ceticismo de criança. Qualquer um duvida da existência de Deus. Quem se leva muito a sério por isso é que é meio bobo.

E a razão pra ninguém estar nem aí para corrupção é que nossa relação com a política não é racional, como dizem que é. Somos mais facilmente racionais quando compramos pão francês do que quando pensamos em política. “Consciência política” é tão fetiche quanto “carma”.

Não existe essa tal de consciência política, mas sim simpatias, empatias, interesses, taras, fanatismo que travestimos de “consciência política”.

A única racionalidade possível na política é a de Maquiavel, que continua sendo o filósofo da política mais sério até hoje: a razão da política é a conquista e manutenção do poder a qualquer custo.

Desde o século 18 e a falsa afirmação de que a política redimirá o mundo (pecado do suíço Rousseau), abriu-se um novo “mercado” das mentiras políticas: aquele que diz que a política pode ser “ética”.

A democracia tem uma vocação para a retórica, já dizia Platão. Mas, reconheçamos, não há regime melhor. Nela, o circo das “escolhas éticas” se acumulam ao sabor do marketing e das justificativas do que preferimos.

Não votamos racionalmente. Votamos porque (na melhor das hipóteses) algum candidato ou partido concorda, mais ou menos, com a “pequena” teoria de mundo que temos.

Alguns de nós tem mais tempo e condição de trabalhar suas “pequenas” teorias. Outros vão a seco e votam em quem eles acham que vai aumentar o poder de compra deles (dane-se a corrupção) ou quem mais se encaixa na visão de “um mundo melhor” (maior fetiche da política dos últimos 250 anos) deles (dane-se a corrupção).

Se acreditamos que a economia seja uma ciência do comportamento humano que deve levar em conta coisas como “quem tem o que todo mundo quer ganha mais” tendemos a crer que devemos levar em conta as “leis de mercado”. Quem crê que devemos “buscar formas mais humanas de produção e igualdade” não crê nas “leis de mercado”, mas sim que elas foram inventadas pelos que gostam de explorar os mais fracos.

Mas, como a democracia é um regime baseado numa economia do ressentimento, quem crê em “leis de mercado” é malvado e quem afirma que elas podem ser negadas se quisermos fazer o mundo melhor é visto como gente legal.

Se acho um candidato “fodão”, arrumo razões pra votar nele. Se acho que o Brasil precisa de um modo de vida “x”, arrumo alguém que pareça concordar comigo. Se acho o candidato alguém comprometido com a “justiça social”, ele pode até roubar. Se busco santos, direi: o Brasil precisa de um choque de sinceridade na política.

A crença de que exista racionalidade na política é tão necessária para a maioria das pessoas hoje quanto Deus é necessário para uma porrada de gente. Os não-religiosos creem que olham o mundo de modo mais racional porque não acreditam num ser invisível entre tantos outros. Mas, acreditar que exista uma coisa chamada “consciência política” é também um ato de fé.

Suecos votam para garantir seu tempo livre. Americanos para defender seu quintal. Argentinos por masoquismo. Franceses para garantir a aposentadoria. Ingleses já não sabem se são pós-cristãos ou neomuçulmanos.

E brasileiros votam porque querem mais Estado nas suas vidas. Mais Bolsa Família e mais bolsa empresário. Em mil anos rirão de nossa fé na democracia.

Wellington Dias e seu feito notável

 

 

Escrevo a dois dias das eleições. Estou convicto de que esse texto vai ser publicado porque haverá a vitória do petista Wellington Dias no primeiro turno. E só foi escrito por conta dessa possibilidade concreta.

Wellington vence, gostem ou não, por mérito pessoal. Uma campanha marcada pela regularidade. Uma campanha que não precisou recorrer a malabarismo para emplacar um candidato e um discurso. Bom ou ruim, discurso e candidato andaram ombreados.

 Do outro lado, os seus adversários pediram para ser derrotados. Se já é difícil vencer acertando, muito mais difícil, impossível até!, vencer sem acertar e, ainda, errar em doses industriais.

 José Filho não tinha um discurso, teve que fabricá-lo; José Filho não tinha uma história, teve que inventá-la; José Filho não tinha um nome, teve que criá-lo. Daí nasceu o “Zé”. Duas letras e um acento. Nada mais. Uma alcunha do tamanho da envergadura do pretenso político.

 Wellington tinha e tem uma história. Ficou maior agora. Governará o estado pela terceira vez em pouco mais de dez anos. É um feito notável. E uma responsabilidade gigante.

 Não tenho afinidades políticas com o petista. A minha visão sobre estado, sociedade, indivíduo é diametralmente oposta à dele. Ele bebe em outras fontes que, um dia, já bebi, é verdade; hoje, prefiro outros horizontes.

O que queria registrar, aqui, no entanto, é o feito de Wellington Dias, e a lição que vai ficar depois dessa contenda, marcada por um dos mais baixas disputas jamais protagonizadas nesse nosso “fim-de-mundo”.

Vencer mais uma disputa no primeiro turno foi uma conquista memorável. E isso não pode ser desprezado. Embora tenha feito, na minha opinião, apenas dois governos razoáveis, a população aprovou e ratificou a aprovação astronômica obtida em dois mandatos anteriores, conferindo-lhe mais uma jornada à frente do executivo.

 Apelando a sua popularidade, ao seu carisma, Dias deu o tom e soube muito bem explorar suas qualidades e aplainar seus defeitos.

 Seu adversário, Zé Filho, mesmo com uma estrutura partidária e política gigantescas, afogou-se em sua própria mediocridade. Não foi capaz de, ao menos, emplacar um discurso verossímil. Perdeu, primeiro, para ele mesmo.

 De qualquer forma, resta parabenizar Wellington. Não se chega à posição que ele chegou sem méritos pessoais, sem algum brilho. Sua vida política é uma construção vitoriosa, coroada agora por mais uma possibilidade de conduzir nossos destinos.

Uma réstia de luz

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A sociedade brasileira não podia premiar a incompetência. Não deveria oferecer de bandeja um novo mandato ao petismo assim tão fácil. Era preciso mostrar que parte grande  do país não concorda com os descalabros petistas. Dizer não era uma questão de honra.

Aécio Neves, que vai disputar a segunda etapa com Dilma, foi merecedor porque ostenta um discurso reto, firme e concatena ideias com certa desenvoltura. Conhece as filigranas da administração pública. Chegar ao segundo turno foi mais do que merecido.

Enquanto isso, Dilma é só uma caricatura. Uma sombra que, sem as muletas de um marqueteiro, não consegue ordenar uma ideia clara. É incapaz de falar por dois minutos sem ter que recorrer a anacolutos desajeitados.

Marina perdeu-se diante da bateria de ataques de um partido que se especializou em sujar reputações dos adversários e lavar as dos apaniguados, Collor e Sarney que os digam.

Marina não estava preparada para tamanha ignomínia. Não foi capaz de resistir ao que de mais pérfido  há na política brasileira.

Veremos agora. Aécio chega com fôlego, mas há um PT pela frente. Há uma máquina pronta para atacar qualquer coisa que se mova e não seja PT.

Força, Aécio. Há alguns valores fundamentais em jogo. E sua derrota pode representar muito mais do que uma derrota.

“Nem sequer errado”

Helio,  colunista da folha de São Paulo, é um dos mais hábeis articulista da imprensa nacional. Vai mais um grande texto dele.

 

Hélio Schwartsman

Nem sequer errado

SÃO PAULO – A história talvez seja apócrifa, mas é muito boa. Um dia um amigo do físico Wolfgang Pauli lhe mostrou um artigo particularmente confuso escrito por um estudante e pediu sua opinião, ao que o cientista austríaco teria sentenciado: “Não é só que não esteja certo; não está nem sequer errado”.

A frase vem sendo usada desde então como crítica a textos desprovidos do conteúdo empírico mínimo para que possam ser avaliados. Lembrei da historieta a propósito dos programas dos candidatos à Presidência. Além da versão burocrática exigida pela Justiça Eleitoral no registro da candidatura, os principais postulantes ofereceram poucos elementos para o eleitor julgar suas ideias.

Marina Silva até apresentou um documento formal, em que pese ter sido elaborado às pressas e conter inconsistências. Tê-lo feito, porém, não só não contou como ponto a favor como ainda revelou-se uma vulnerabilidade. A divulgação do programa rendeu-lhe alguns dos ataques mais fortes que sofreu.

Como consequência, Aécio Neves optou por publicar um texto mais enxuto –e vago–, frisando que as ideias ali apresentadas ainda estão sendo debatidas. Mais direta, Dilma Rousseff decidiu que não lançar nenhum plano detalhado.

O resultado final é ruim para a democracia. Os candidatos não só evitam comprometer-se com propostas concretas –que, sob determinados parâmetros, poderiam ser classificadas como certas ou erradas– como deixam de expor-se à crítica, o que poderia revelar bastante sobre sua personalidade e estilo de governar.

Venho há tempos martelando a tese de que, em eleições, o cérebro emocional tende a falar mais alto do que o córtex pré-frontal. Daí não decorre, porém, que a razão seja dispensável. Mesmo que sejam poucos os que votam com base nas propostas apresentadas, são elas que permitem depois verificar se o governante se manteve fiel a seus compromissos.

Um desastre chamado Dilma

 

Um desastre chamado Dilma

Dilma Rousseff

O cenário político brasileiro é desolador. A paisagem é lunar. Há uma horda de “marginais do poder”, como disse o ministro do STF, Celso de melo, no julgamento do mensalão, transitando sem cerimônia pelo planalto com uma desfaçatez digna de gangsteres sicilianos.

Mas o mais grave não é reconhecer os “marginais”. O mais grave, senhores, é reconhecer que grande parte da sociedade se acumplicia com eles, numa relação das mais nefandas que já presenciei desde de tempos idos.

O percentual que a presidente Dilma, a gerentona de araque, ainda ostenta nas pesquisas eleitorais revela muito mais do que uma simples intenção de votos. Revela uma inclinação. Revela uma disposição de grande parte da sociedade brasileira – cerca de 40 por cento – de se associar a uma maneira de fazer política que flerta com o ilícito escancaradamente.

Eu nem elenco os desastres gerenciais produzidos pela petista. Os números pululam por aí. A nossa economia apanha mais do que galo em rinha. Cresce menos do que todos os países emergentes. Não consegue controlar inflação e ainda faz malabarismos em sua contabilidade para manter as aparências.

Digamos que os que rivalizam com a ineficiente presidente petista não sejam aptos a substituí-la. É só uma suposição, afinal até um Levi Fidelix daquele seria capaz de suplantá-la. Digamos que os outros não tenham cacife para tocar essa nau desgovernada chamada Brasil. Digamos.

Bastaria acompanhar o noticiário para dizer um não eloquente a comandante que conseguiu- Deus meu!- superar com crescimento econômico apenas Floriano Peixoto, o primeiro presidente republicano, que enfrentou convulsões intestinas em seu mandato e Collor de Melo, aliado da hora dos petistas, que se afundou num oceano de imoralidades em seu primeiro mandato.

Pronto. Seria a única postura digna de uma sociedade que se diz pensante. Fora os beneficiários dos bolsas – família da vida, os que lucram horrores – empreiteiras, grandes e pequenos empresários -, e os militontos, todos os outros deveriam cerrar fileiras contra um projeto autoritário e sucateado de poder.

Mas não. Os números mostram a resistência da candidata, do seu partido, que protagoniza escândalos e escândalos com cifras bilionárias. Isso mesmo. Aqueles desviozinhos de alguns milhões, é coisa do passado. Desviam-se agora valores que só são estampados nas capas da revista Forbes, aquela que elenca os bilionários do mundo.

É isso mesmo. Fazer o quê. O pântano em que estamos mergulhado é uma obra coletiva. E a cada braçada, avançamos mais ainda para as turvas águas fétidas de um país que respira e exala lama.

Política & Questiúnculas