Do riso à reflexão

 

João Cláudio: do riso à reflexão

Em regra, eu rio e me emociono quando assisto a um show do João Cláudio, o artista do riso e, por que não, da reflexão.

A emoção sentida é contida; o riso, desbragado. E, não raro, dentro do ambiente mágico que ele ele cria, riso e emoção encontram-se e se irmanam como gêmeos siameses, impossível de separar um do outro sem que um ou todos pereçam.

As expressões faciais que se assomam, sem controle, ao se deparar com a performance do artista, são o intervalo saudável que se assenta na face carrancuda que costumamos carregar no dia a dia.

Sempre me pareceu que o artista piauiense, que deflagra a alegria nos outros, sente-se incomodado com alguma coisa ou com algumas coisas desse mundo. “ Meu reino não é desse mundo”, reproduziu ele numa mensagem endereçada a mim, recentemente, numa alusão a um texto de minha lavra, publicado neste jornal, com o qual ele concordava e aquiescia.

Eu sempre imaginei que, após o arrefecimento das luzes da ribalta, após a noite cair, a couraça que protege o piripiriense dos infortúnios, que permite que ele transborde alegria em sua atuação, é retirada por ele, como uma armadura, e dependurada detrás da porta, num cabide solitário, na coxia da vida nada iluminada.

Sempre o considerei mais do que um humorista. Mas nunca soube defini-lo. Sei o que ele não é: um intelectual pedante, grávido de teorias que se escondem nas linguagens herméticas das academias da vida, nem um pensador elaborado, porque não tem essa pretensão, como é fácil entrever de suas falas “matutas” que, por encanto, ganham formas e cores cada vez que ele aborda um assunto, seja ele qual for.

Toda vez que ele se expressa em falas ou gestos, sinto o seu sentimento de inadequação com o mundo, e o acompanho, involuntariamente, nessa incursão que ele faz pelas “coisas que foram sonhadas e não se cumpriram”, como disse Drummond.

Suas imitações reúnem muitos personagens, todos dentro de um universo que ele criou com uma sensibilidade que não é desse mundo. Uma reunião de “fantasmas” vivos e mortos, errantes, que deambulam faceiramente na mente prodigiosa do artista do riso e da reflexão.

Produzindo risos, que nos ajudam a escorar a fina e frágil casca civilizadora que nos cobre, João Cláudio nos permite “superar o isolamento, fortalecendo-nos perante o desespero”, como asseverou Roger Scruton, filósofo inglês, ao tecer considerações sobre o riso na visão conservadora, em seu excelente livro “Como Ser um Conservador”.

João Cláudio é a fonte de onde promana a alegria que nos civiliza e nos emociona. Abeberar-se nela, portanto, é providencial. É vital.

Os clássicos de Theodore

Republicando:

Theodore Dalrymple

 

 

Em “ Vida na Sarjeta”, um dos livros clássicos de Theodore Dalrympel ( já o citei neste espaço), codinome de um médico conservador Inglês, que trabalha nos subúrbios e nos presídios londrinos, o autor faz uma leitura demolidora dos costumes e práticas sociais da população marginalizada.

E o faz com a grandeza de quem não se deixa levar pela idiotice do politicamente correto nem pela afetação dos multiculturalistas empedernidos.

Ele, diferente dos intelectuais marxistas, não condescende com a vitimização permanente. Assim, tenta preservar o indivíduo como agente de sua própria vida, como um ser capaz de fazer escolhas, mesmo diante de situações degradantes. Enfim: imputa responsabilidades, não transferindo para os entes abstratos todos infortúnios vivenciados pelos que se encontram em situação marginalizada.

No segundo livro traduzido para o português– “A Nossa Cultura.. ou o Que Restou Dela” -, o médico percorre o caminho da alta cultura para reforçar suas convicções, sempre munido de uma lógica inquebrantável e de uma vivência extraordinária – ele trabalhou na áfrica conflagrada pelas guerras, em zonas de riscos e em ambientes extremamente hostis e hospitais psiquiátricos nos subúrbios de Londres e presídios ingleses.

De shakespeare a Vírgínia Wolf, os ensaios do inglês formam um painel vigoroso. Sem abrir mão da erudição, Darlympel evidencia a importância de distinguir nas artes – literatura, pintura, música – o que merece o epíteto de arte e o que não merece ostentar essa dignidade. Em resumo: se tudo é arte, nada é arte.

Reforça, o inglês, que o estoque de conhecimentos e afetos engendrados pelos antepassados, é a pedra angular que sustenta as aspirações de uma sociedade que pretende cultivar valores elevados e fazer deles um farol para iluminar os caminhos pelos quais se deve trilhar.

Theodore pontua que fazer tábula rasa desse conjunto de coisas que “passaram no teste do tempo”, por isso ainda se mantém, é o caminho para degradação. O seu olhar conservador, de estirpe inglesa, bom que se diga, alcança a preservação do que foi construído pela labuta dos que nos antecederam.

Eis o grande diferencial de quem dispensa grandes rupturas (revoluções) como soluções para construir um novo homem, despojado dos vícios que a nauteza humana os impingiu. É a velha máxima que diz que as revoluções costumam devorar seus próprios filhos. E que nem tudo que é novo é bom e o que é bom nem sempre é novo.

Nessa pisada, o livro é uma coletânea de textos do mais alto quilate, com um pensamento vigoroso e raro, tão necessário nesse país, que se aferrou a soluções coletivistas para problemas gerados por uma cultura….coletivista.

Dois novos livros do inglês já estão disponíveis. “ Podres de Mimados e “ Em defesa do Preconceito” são as novas públicações de um pensamento que está fazendo guarida no nosso meio a despeito da resistência secular de uma nação que preferiu marchar abraçada em ideias que reduziu um indivíduo a uma mera peça de tabuleiro, comandada pela mão visível de um estado paquidérmico.

Sinistro currículo

O grande Ives Gandra põe o dedo na ferida e mostra aos que ainda insistem nessa verborragia tosca de que há um golpe em curso. 

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Quando elaborei meu parecer sobre a improbidade administrativa no governo Dilma, em 26 de janeiro, entendi haver fundamentos para o impeachment por culpa grave. A lei dos crimes contra a responsabilidade administrativa admite a culpa como crime (omissão), assim como há decisões do STJ (Superior Tribunal de Justiça) nessa linha.

Concluí o documento, todavia, dizendo que o julgamento na Câmara e no Senado, se aberto o processo, seria exclusivamente político.

No referido parecer, comentei que, no regime de governo da “responsabilidade a prazo incerto”, que é o parlamentarismo, todas as falhas detectadas já teriam permitido o afastamento da presidente sem traumas, pelo voto de desconfiança, e a eleição de um novo condutor, indicado pelo Parlamento.

No regime de “irresponsabilidade a prazo certo”, que é o presidencialismo, só o traumático processo de impeachment leva à destituição do primeiro mandatário.

Não há dúvida de que todos os ingredientes do julgamento político estão presentes no curso do pedido de impeachment.

Não cuidarei, neste artigo, dos argumentos jurídicos –violação ao artigo 3º, inciso 3, da Lei do Impeachment (nº 1.079/50) e ao artigo 11 da lei dos crimes contra a probidade da administração (nº 8.429/92)– nem das “pedaladas” violentadoras da Lei de Responsabilidade Fiscal, ou seja, culpa nas primeiras e dolo na segunda. Servem apenas para embasar o julgamento político.

Para este artigo é de se lembrar que a presidente foi alertada por técnicos do Tesouro Nacional de que as “pedaladas” maculariam o diploma legislativo, podendo tirar do Brasil o grau de investimento das agências de “rating”, o que, efetivamente, aconteceu. Outros elementos econômicos e políticos foram, também, deletérios e corrosivos.

O governo congelou preços, prejudicando a Petrobras e as produtoras de energia elétrica e etanol, o que terminou por gerar, em 2015, inflação reprimida pela técnica de controle de preços, que desde o Código de Hamurabi, há 3.800 anos, não é bem sucedida. Diocleciano, em 301, no Império Romano, e os planos Cruzado, Bresser e Primavera também fracassaram nisso.

A presidente mentiu, quando da campanha, ao afirmar que as finanças públicas estavam bem, em momento em que já se encontravam corroídas por péssima administração e por empréstimos ilegais junto a bancos oficiais.

O governo gerou uma inflação de dois dígitos. Viu o país rebaixado de grau de investimento para grau especulativo, perdendo os investimentos dos fundos de pensão dos países desenvolvidos. Fez o PIB recuar em 3%, com perspectivas de recuos ainda maiores neste ano.

Cortou o Fies, deixando uma legião de alunos universitários sem financiamento. Elevou os juros para 14,25% (taxa Selic), com o que passou, o governo, a pagar em torno de R$ 500 bilhões por ano para rolar a dívida. Nem por isto segurou a brutal desvalorização do real.

O governo perdeu o diálogo com o Congresso, com empresários, com estudantes e com o povo. Foi desventrada, no seio dele, a maior rede de corrupção de nossa história.

São esses os fatos que serão analisados pelo Congresso, para saber se um governo com tal sinistro currículo pode continuar a dirigir o Brasil por mais três anos.

O Congresso, como caixa de ressonância dos 140 milhões de eleitores brasileiros, deverá decidir, sem desconhecer os fundamentos jurídicos, mas exclusivamente pelo prisma político, se a presidente Dilma poderá continuar a conduzir o governo com a pior performance econômica entre os países americanos, excetuando-se a Venezuela, deste desastrado aprendiz de ditador que é Nicolás Maduro.

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS, 80, advogado, é professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra

A foto do ano

No Antagonista:

O Estadão informa que a Polícia Federal anexou aos autos do inquérito que investiga a Odebrecht fotos e planilhas com dados pessoais de Lula…

O Natal já passou, mas dá um belo cartão de “Feliz 2016″

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“o meu mundo também não excede duas mãos cheias”

Coutinho, em sua coluna de hoje na Folha, escreveu um texto magistral. Ele cita um outro cronista e retira esse excerto de uma de suas crônicas. Não há como não reproduzir: 

“Aos 40 anos, não compreendo esse medo de ficar sozinho que me inquietava ainda aos 33. Ficamos sozinhos quando somos exigentes. Ficamos sozinhos quando não mentimos. Ficamos sozinhos quando defendemos as nossas convicções. É um preço que estou disposto a pagar. E há, digamos, dez pessoas de quem gosto, dez pessoas sobre quem não me enganei, e dez pessoas é um mundo.”

 

Agamenon: Um Conto de Natal

Agamenon: Um Conto de Natal

Poucos sabem que antes de me tornar um jornalista vitorioso, cobiçado pelas mulheres e perseguido pela Receita Federal, eu tive uma infância sofrida e miserável. E quando chega a época dos festejos natalinos, eu me recordo com emoção dos meus natais de menino pobretão… Eu era tão pobre e miserável, eu passava tanta necessidade, que o Sebastião Salgado poderia ganhar uma nota preta fazendo um livro caríssimo só com fotos minhas e da minha condição depauperada.

Eu e minha família morávamos num barraco de 3×4, que dividíamos com duas famílias: uma de retirantes e a outra de colocantes. Nós não tínhamos um endereço certo porque a cada enchente que caía sobre a cidade, o nosso barraco saía boiando como uma arca de Noé desgovernada, até parar em outra freguesia.

A umidade do barraco era intensa, o que piorava a tuberculose da minha mãezinha que ralava dia e noite na máquina de costura para sustentar os vícios do meu pai, que não eram poucos. Meu pai, por sua vez, vivia desempregado e embriagado e, sempre que estava de bom humor, passava os dias nos espancando. Quando minha pobre mãezinha juntava uns trocados, nos mimava comprando um sapato velho para dar um gostinho no feijão.

Eu me lembro de uma antiga noite de Natal, lá em mil novecentos e Dercy Gonçalves. Nevava a cântaros, o frio era terrível e cortante. Eu era um personagem de Dickens e não sabia nem mesmo porque era analfabeto e o único livro que tinha lá em casa um rato metido a intelectual comeu. Para nos esquentar naquele inverno rigoroso, meu pai tacou meu irmãozinho mais novo na lareira, coitado. A nossa ceia de Natal se resumia a uma rala e insossa sopa de osso, um fêmur, que, descobri mais tarde, ser de mamãe, que, sempre extremosa, havia retirado de sua própria perna para não ver seus filhos passarem fome. Enquanto isso, meu pai, sempre egoísta a e cruel, saboreava uma suculenta caixa de bacalhau, sem bacalhau, desfiada. O velho monstro devorava a iguaria sem se importar com o nosso olhar faminto e pidão.

Foi aí que ouvimos batidas secas na porta de papelão do nosso barraco. Quem seria àquela hora, em plena noite de Natal? Seria o Papai Noel? – pensei eu na minha ingenuidade infantil de criança pueril. Mas não. Era o cara das Casas Bahia que veio recolher a máquina de costura da mamãe que estava com a prestação atrasada. Mamãe, aos prantos, se agarrava como podia à fonte de nosso sustento. Mas o insensível prestamista não queria saber e enchia a velha de porrada. Isto deixou meu pai enciumado. Achando que a sua esposa estava dando mole para o sujeito, meu genitor imediatamente partiu pra dentro da minha mãezinha com violência inaudita. Mesmo apanhando mais que palmeirense na torcida do Corinthians, mamãe ainda encontrou forças para ter um violento ataque de hemoptise.

Ao ver aquela cena dantesca, resolvi fazer alguma coisa para acabar com aquela desgraceira digna de manchete do Extra. Assim, peguei minha irmãzinha pela mão e fomos para a rua. Caminhamos horas no meio da neve fria e gelada, pedindo uma esmola ou um pedaço de pão velho, qualquer coisa servia. Nós já estávamos ficando congelados quando, de repente, um homem bondoso resolveu estender a sua mão caridosa e, num gesto de generosidade, comprou a minha irmãzinha de 22 anos na porta da discoteca Help, que, naquela época remota, ainda existia.

Eu mal podia acreditar ao ver na minha mão aquelas duas notas de cinquenta contos de réis. Com lágrimas nos olhos, disparei na direção de casa ainda a tempo de deter o caminhão das Casas Bahia. Sofregamente, coloquei o dinheiro na mão do ganancioso vendedor que me devolveu a máquina de costura. Com o fio de voz que lhe restava, mamãe, emocionada, me agradeceu:

– Agamenon, meu filho, Deus te abençoe! Isto foi um milagre de Natal!

– Milagre é o cacete, mãe! – disse eu. Você está despedida! Na sua vaga, eu vou colocar uma boliviana ilegal,que, para este tipo de trabalho escravo, tem uma produtividade muito maior!

Por isso, todo ano, na noite de Natal, eu vou pro Calçadão da Avenida Atlântica e, sempre que posso, compro uma criatura. Quem sabe assim eu possa estar ajudando alguém que, como eu, também vive duro tal qual um peru de Natal congelado.

Para que o Peru de Natal atinja seu ponto perfeito de cozimento, sabor, consistência e dureza, é necessário que a dona de casa tenha muito cuidado ao manusear os ovos

A origem

No Antagonista

Adão Cunha e Eva Dilma

A coluna Painel da Folha informa qual será a principal ação de governo de Dilma Rousseff em 2016:

“O Planalto e o PT pretendem continuar rivalizando sobre o impeachment com Eduardo Cunha, ainda que o peemedebista seja apeado da presidência da Câmara no ano que vem. Para auxiliares de Dilma Rousseff, ter transformado o deputado em vilão da narrativa vem dando resultado. A ideia é enfatizar que o pedido nasceu como fruto de um ‘pecado original’ e que, contaminado desde o princípio, não tem legitimidade mesmo que Cunha já não esteja à frente do processo formalmente.”

Nesse “pecado original”, Eduardo Cunha é Adão e Dilma Rousseff, Eva. Ambos serão expulsos do Paraíso.

Cunha, experimenta essa maçã

Um livro imperdível

VAMOS AO QUE INTERESSA

O que sua lucidez implacável ilumina de nossa “era da brutalidade”, seu humor “”outro nome para a inteligência”” torna menos insuportável nossa travessia.

Reprodução

Nesta impressionante amostra das suas colunas para a Folha, desde 2008 até a atualidade, o cientista político português João Pereira Coutinho mostra que “o que interessa” é defender os grandes valores civilizatórios, a começar da liberdade, contra o que os ameaça “”dos terroristas islâmicos à corrupção bolivariana, passando pelos colaboracionistas intelectuais, que ele chama de “sábios mentecaptos”, cuja hipocrisia, medo da irrelevância e frouxidão moral abrem caminho para as barbáries.

Com extrema agilidade mental e prosa envolvente, Coutinho nos leva pela mão (se a metáfora não soar paternalista demais para um intelectual cujo foco e talento é nos educar à independência) por questões polêmicas como o “racismo às avessas” dos defensores das cotas para negros, a censura a Monteiro Lobato e o atentado contra o “Charlie Hebdo”, em Paris. (CAIO LIUDVIK)

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