Vamos ao que interessa

 

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Leiam. É minha sugestão para os que ainda não leram “Vamos ao que interessa” – livro do inenarrável João Pereira Coutinho, o mais notável português que já conheci. Aliás, que li. Havia lido Saramago. Textos truncados porque orfãos da pontuação que civiliza e que acalma almas ariscas. Mas tinha o seu charme.

São cem crônicas escolhidas, todas publicadas no Jornal Folha de São Paulo. Poderia ser mil. Ler-se-ia com a mesma vivacidade. Da primeira a última. Temas? Todos os que interessam aos viventes desse mundo cheio de glória e terror. Estilo? Um esteta das letras que parece que escreve embriagando-se de vinho do Porto. E ele só tem, acreditem!, quarenta anos. Espanto!

Estou nos finalmente. E olha que muitos dos escritos já me eram íntimos. Sou um leitor voraz dos seus textos semanais na Folha. Mas ao relê-los no livro, tudo parece tão novo, tão intocado. A repetição da leitura torna-os mais fascinantes.

Aquela ironia que te encantou volta a te encantar; aquela metáfora lindamente insculpida volta a te extasiar; aquela abordagem que fez com que você parasse e fechasse o livro e colocasse a mão no queixo para uma pausa de reflexão, impõe o mesmo gesto; aquele riso que escapou pelo canto direito  da boca na primeira leitura corre para o canto esquerdo na segunda e, na falta de “cantos” para reagir a uma terceira, toma conta da face inteira. Divino.

Estou no fim. Lamento. Antecipando saudades, já sinto falta desses textos específicos. Eles vão estar, é verdade, ao alcance, no meio de outros livros, de outras obras, inclusive do mesmo autor. Mas só de pensar em passar a última página…dor.

Mas é preciso chegar ao fim. Para depois retornar. Como viver agora sem os personagens – pessoas e lugares – desses escritos específicos, desta reunião de textos tão bem compilada? Sem conviver todo o dia com sua visão blasé da vida, com suas compulsões introjetadas e, depois, reveladas em textos leves e soltos de tudo que interessa a ele e a nós?

É preciso findar a obra porque ele continua produzindo aos borbotões. E preciso conhecer os novos textos que não envelhecem.

Não me parece que a inspiração, um dia, o abandone. Ele é um todo inspirado. Dá impressão que os momentos inspiradores preenchem todo o seu tempo, não dando espaço para a frigidez que toma de assalto, com frequência, os que não são Coutinho.

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